ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
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Programa 1158
>>Batendo cabeça
>>Abordagem transversal
Postado por Luciano Martins Costa 5/11/2009 às 9:32:47 AM
 

Batendo cabeça

A menos de 50 dias da abertura da 15a. Conferência das Partes em Copenhague, da qual devem sair as decisões de governos para reorientar as atividades econômicas e sociais para reverter o quadro do aquecimento global, o governo brasileiro ainda se perde em discussões burocráticas e demonstra não ter avaliado a importância do evento.

A CoP15 é parte do processo chamado Conferência Quadro da ONU sobre Mudança do Clima e deve marcar uma nova etapa do processo de mudanças no sistema econômico mundial, criando regras e procedimentos mais adequados ao advento das tecnologias revolucionárias das últimas décadas e à necessidade de reverter o quadro ambiental que ameaça o futuro da humanidade.

O núcleo decisório do governo se prende a um detalhe burocrático, o de que o Brasil não precisa apresentar uma meta por não pertencer ao grupo dos países industrializados há mais tempo – componentes do Anexo 1 do Protocolo de Kyoto.

Parte dos auxiliares do presidente não enxerga a oportunidade de assumir a liderança mundial para as mudanças.

Para o governo, limitar o desmatamento anual até 2020 em 80% dos atuais índices (19 mil km2 de desmatamento por ano) e estimular a substituição de derivados de petróleo por biocombustíveis seriam medidas suficientes para fazer boa figura em Copenhague.

Trata-se de um equívoco de tal monta que pode criar uma limitação grave ao desenvolvimento do País em médio prazo.

O mito de que o crescimento econômico em si seria a maneira correta de atacar as desigualdades sociais e prover recursos para o Estado fiscalizar as atividades econômicas predatórias está no centro das vacilações do atual governo.

Faz parte do imaginário de uma geração de líderes que sempre considerou o movimento ambientalista como inimigo dos interesses dos trabalhadores, por exigir das empresas que apliquem parte considerável de seus recursos na redução da poluição.

Para muitos sindicalistas e líderes políticos dos anos 80, os ambientalistas apenas propunham aumento de gastos, o que reduziria as possibilidades de benefícios salariais aos trabalhadores.

Essa postura repete a antiga falácia de que é preciso fazer crescer o bolo econômico para depois redistribuir os benefícios do desenvolvimento, ao postular-se a tese de que é preciso garantir o crescimento econômico para compor recursos para a sustentabilidade.

De modo geral, a imprensa concorda com essa assertiva, mas já se mostra mais sensível aos argumentos dos especialistas que exigem um compromisso mais sério do Brasil em Copenhague.

Abordagem transversal

O Globo é o único dos três jornais de relevância nacional a dar destaque ao tema, na edição desta quinta-feira.

Em reportagem de página inteira, relata as divergências internas no Ministério, com claras referências às controvérsias entre os chamados desenvolvimentistas – adeptos de menos controle sobre os investimentos como forma de estimular o crescimento da economia – e o grupo que enxerga a chance de o País adotar uma estratégia de desenvolvimento sustentável.

Mas falta, de modo geral, em toda a imprensa, uma visão permanente daquilo que está em jogo.

O noticiário ainda é fragmentado, e para entender o quadro todo o leitor teria que contar com tempo extra e disponibilidade para consultar outras fontes de informação.

Talvez a solução fosse tratar nos jornais diários dos acontecimentos isolados relativos à questão ambiental e periodicamente fazer uma remissão ao quadro geral dos temas que serão discutidos em Copenhague, fazendo referência à relação entre a questão ambiental e o cenário econômico.

Essa abordagem transversal poderia facilitar o entendimento do leitor de que muitas outras notícias do jornal estão conectadas ao problema central do aquecimento global e das carências sociais.

Veja-se, por exemplo, o noticiário político.

Segundo os jornais, a  reunião da Comissão de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara dos Deputados, que deveria votar o novo Código Florestal, foi cancelada nesta quarta-feira, por falta de quorum, apesar da forte presença de deputados na sala.

Organizados para levar adiante a proposta de flexibilização da legislação de proteção ambiental, os parlamentares ruralistas se negaram a assinar a lista de presença para forçar a suspensão.

Segundo o Globo, um dos líderes ruralistas admitiu que os deputados forçaram o adiamento da votação “por causa da pressão da grande mídia”.

Esse é um dos papéis da imprensa: impedir que o Legislativo tome decisões importantes como essa longe do olhar da sociedade.

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